40º Aniversário do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR)

COMANDANTE DA MARINHA - Marinha do Brasil

Atualmente, é incontestável a importância da Antártica como reserva natural para a humanidade e a ciência. Incomensurável berço de água doce e de outros recursos vivos e não vivos, constitui valioso objeto de estudo para comunidades científicas, especialmente pela influência que exerce em fenômenos no hemisfério sul e no regime de águas dos oceanos.
O Ano Geofísico Internacional (1957-1958) lançou as bases para a ocupação pacífica e direcionada à ciência do continente gelado, que culminou com o advento do Tratado da Antártica, em 1959. Esse, possivelmente o marco mais relevante em sua história, tornou-se instrumento jurídico imprescindível por estabelecer a importância da pesquisa e da preservação daquele continente para o futuro da humanidade e por estipular a primazia da liberdade científica, da cooperação e da pacificidade sobre quaisquer interesses econômicos, territoriais ou políticos.
O Brasil, em reconhecimento à importância geoestratégica e geoeconômica da Antártica, aderiu ao tratado em 1975, trazendo às vistas de nossa população o longínquo continente branco. No entanto, nessa etapa inicial, ainda restava ao nosso País as tarefas de chegar, pesquisar e, efetivamente, se estabelecer na Antártica, ações que nos possibilitariam tornar parte consultiva do tratado e, consequentemente, participar das decisões sobre o destino desse continente.
Em 12 de janeiro de 1982, foi criado o Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR), em consonância com os compromissos internacionais assumidos na adesão ao Tratado Antártico. Coube
então à Marinha, tendo o Almirante Maximiano Eduardo da Silva Fonseca como Ministro e Coordenador da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, a importante missão de conduzir e levar a bom termo tão auspicioso Programa, juntamente com os demais Ministérios integrantes daquela Comissão.
No cumprimento de sua missão, a Marinha logo buscou um navio que levasse militares e pesquisadores brasileiros até a Antártica, resultando na aquisição do saudoso Navio de Apoio Oceanográfico “Barão de Teffé”, nesse mesmo ano. Coube ao aguerrido pessoal do AMRJ adaptá-lo e prontificá-lo para sua primeira viagem. Nem mesmo o conflito armado que transcorria nas águas do Atlântico Sul demoveu a Alta Administração Naval daquele firme propósito.
Já no primeiro verão antártico, entre 1982 e 1983, dando início a primeira Operação
Antártica (OPERANTAR), o “Barão de Teffé” iniciava sua singradura em águas antárticas, acompanhado do Navio Oceanográfico Professor Wladimir Besnard, da Universidade de São Paulo, sinalizando, desde os primórdios, a sinergia que permeia até hoje a relação entre os Ministérios, Órgãos Governamentais e demais Instituições que integram o PROANTAR. A partir de então, o Brasil foi aceito como parte consultiva do tratado em 1983, tornando-se membro do seleto grupo de Nações responsáveis por opinar sobre os rumos daquele continente.
Fruto do trabalho conjunto com nossa Força Aérea, ainda em 1983, houve o primeiro pouso de uma aeronave de asa fixa brasileira na base antártica chilena Presidente Eduardo Frei Montalva, conferindo maior dinamismo e versatilidade às atividades do PROANTAR.
Na segunda OPERANTAR, em 1984, foi concluída a instalação dos primeiros módulos que compuseram a EACF, fruto da visão de futuro e do incansável esforço de compatriotas que, ao vencerem os desafios inerentes a um lugar distante e inóspito, lançaram os primeiros passos para nossa permanência na Antártica.
A primeira invernação de um Grupo-Base da Estação ocorreu em 1986. Desde então, a bandeira brasileira esteve permanentemente hasteada na Antártica. Em 2020, após extenuante processo de modernização, que agregou tecnologia e sustentabilidade às novas instalações, a Marinha proporcionou melhores condições de segurança e habitabilidade aos homens e mulheres que habitam a EACF, além de ampliar, consideravelmente, suas capacidades de pesquisa.
Hoje, nossa Força dispõe do Navio de Apoio Oceanográfico “Ary Rongel” e do Navio Polar “Almirante Maximiano”, que anualmente realizam a OPERANTAR, juntamente com as aeronaves do 1º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral, levando nossos militares e pesquisadores até os confins do Sexto Continente para, dentre outras tarefas, lançar acampamentos de pesquisas nos refúgios, realizar levantamentos hidrográficos e observações meteorológicas, e, principalmente, exercer o esforço principal no abastecimento e na manutenção de nossa Estação.
Recentemente, coroando os esforços do Brasil em proveito das atividades do PROANTAR, a Marinha anunciou a construção no País do mais novo Navio de Apoio Antártico, que substituirá o “Ary Rongel”. Além de prestigiar nossa indústria naval e gerar milhares de empregos aos brasileiros, tornou-se um marco pois, dentro em breve, o PROANTAR terá à sua disposição um meio genuinamente dedicado às lides antárticas, construído por brasileiros em estaleiro nacional, que ostentará com muito orgulho o pavilhão auriverde, difundindo as capacidades denosso País, e promovendo a cooperação entre os demais signatários do tratado.
O PROANTAR, além de ser o responsável pela avaliação do impacto das atividades do Brasil naquele continente, é também o principal instrumento para implementação e consolidação de uma Política Nacional voltada aos assuntos daquela região, que, além de contribuir para acontinuidade das pesquisas ora desenvolvidas, possibilitará a manutenção de nosso País como membro consultivo do Tratado da Antártica e, consequentemente, como um dos responsáveis pela definição do futuro do Sexto Continente.
Estar apto a fazer valer nosso ponto de vista implica em conhecer, profundamente, os diversos processos que ocorrem em tão importante região. A compreensão do potencial da Antártica para o futuro de nossa Nação impende, antes de qualquer coisa, em lançar mão damotivação que levou nossos antecessores a criarem este bem-sucedido programa.
São 40 anos de história, inúmeras milhas navegadas, densas nuvens transpassadas e longínquas pesquisas realizadas. O esforço empreendido por cada brasileiro partícipe do PROANTAR traz consigo a alma sublime de um povo que acredita em seus sonhos, supera adversidades com criatividade e se preocupa em deixar para gerações futuras a esperança, a perseverança e a fé de que, no âmbito das atividades desenvolvidas pelo PROANTAR, tudo acontece com o propósito de garantir a presença soberana de nossa Pátria na Antártica, a fim de preservar os interesses do povo brasileiro.
Que ventos favoráveis continuem a soprar para além do paralelo 60 graus Sul, prenunciando um futuro glorioso ao nosso Programa Antártico.
Parabéns PROANTAR!

ALMIR GARNIER SANTOS
Almirante de Esquadra
Comandante da Marinha

Fonte ACS/MB

Por (LCN) @luiscelsoborges

luiscelsoborges@hotmail.com

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